terça-feira, 15 de julho de 2014

Carta de repúdio ao Estado de Sítio vivido no Rio de Janeiro




15 JULHO 2014 
CLASSIFICADO EM BRASIL - COPA PARA QUEM?

Rio de Janeiro, 14 de julho de 2014
O último final de semana no Rio de Janeiro vivenciou o estabelecimento de um verdadeiro Estado de Sítio implementado para garantia do megaevento Copa do Mundo. A ação repressiva e violenta, entretanto, já se fazia perceptível desde o ano passado com uma brutal criminalização dos movimentos reivindicatórios que ocuparam os espaços públicos como forma de defender mais saúde, educação e mobilidade, entre outros direitos sociais resguardados na Constituição desde 1988.
O que se assistiu nesse final de semana foi um espetáculo lamentável de ruptura com qualquer noção de democracia.
No sábado, dia 12 de julho, o juiz da 27ª vara criminal do Poder Judiciário do Rio de Janeiro autorizou o cumprimento de ilegais 26 mandados de prisão temporária, sob argumento central de que “verifica-se, também, que há sérios indícios de que está sendo planejada a realização de atos de extrema violência para os próximos dias, a fim de aproveitar a visibilidade decorrente da cobertura da Copa do Mundo de futebol, sendo necessária a atuação policial para impedir a consumação desse objetivo e também para identificar os demais integrantes da associação”.
Trata-se de verdadeira prisão política que demonstra a relação subserviente do Poder Judiciário aos interesses econômicos, sejam eles de organismos internacionais ou de poderes públicos estatais. Os Executivos Estadual e Federal vergonhosamente silenciaram diante dos abusos cometidos por suas forças de segurança em atuação no Rio de Janeiro.
É vergonhosa a atuação do Judiciário do Rio de Janeiro que vem se envergando ao Executivo Estadual, demonstrando a falácia da independência entre os poderes e a mediocridade interpretativa dos seus integrantes em defesa de um rebaixado processo de controle social.
Como se não bastasse a ordem prisional decretada no apagar das luzes, prática comum no período inquisitorial e que se perpetuou nos regimes de exceção, vide ditadura civil-militar no Brasil, neste domingo tivemos um verdadeiro estado de sítio estabelecido na praça Saens Pena, Tijuca. O espaço público foi escolhido por uma série de movimentos sociais e partidos políticos para a realização de atos em defesa de mais democracia e politicas públicas, e menos remoções, repressão e criminalização.
O que se seguiu foi um verdadeiro campo de guerra onde as forças de segurança com bombas cercaram os manifestantes, obrigando-os a ficarem presos na praça e impedidos de sair. Ninguém entrava após o estabelecimento do cerco que durou até o final do jogo. Advogados que foram acionados para apoio diante do alto grau de arbitrariedades foram barrados e somente após um longo período é que conseguiram adentrar ao cerco.
Dentro do cerco, os policiais militares (identificados pela sigla alfa-numérica) espancaram manifestantes e quem mais estivesse ali, como um midiativista que teve seu antebraço quebrado pelos golpes de cassetete, dentre várias vítimas. Uma jornalista com a cabeça sangrando e uma estudante com o braço ferido foram impedidas de sair do cerco. Não havia razão para essa brutal repressão, apenas justificada pela certeza de que as autoridades superiores (sejam elas estaduais ou federais) concederam tacitamente carta-branca para o massacre dos militantes.
O legado da Fifa para o Brasil será a sedimentação de um estado de exceção, legitimado pelo sistema judicial, onde cidadãos podem acordar com policiais na sua porta para a decretação de suas prisões como garantia da paz e da ordem do Estado. A paz e a ordem são criadas através da supressão dos direitos de livre manifestação e participação política, e pela prisão dos que defendem a democracia. Mas como nos lembra Marcelo Yuka, “Paz sem voz não é paz é medo!”.
Queremos aqui reiterar que nos recusamos a silenciar. Nossa história e nossas conquistas foram forjadas na luta, e na luta seguiremos.
Lutar, Construir Reforma Agrária Popular
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

Centro de Assessoria Jurídica Popular Mariana Criola

http://boletimmstrj.mst.org.br/carta-de-repudio-ao-estado-de-sitio-vivido-no-rio-de-janeiro/

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Os fascistas

03 JULHO 2014 
Otto Filgueiras
Correio da Cidadania
Os idealistas neo-hegelianos se dizem revoltados com o fascismo, embora não hesitem em apoiar o governo petista e de comunistas de logotipo que fazem aliança com os fascistas para garantir a administração cordata do capitalismo.
No início da década de 1960, na fundação da AP, era uma característica de uma parte dos militantes, de origem cristã e influenciados pelas ideias neo-hegelianas do Padre Henrique Lima Vaz, achar que a consciência, o pensamento ideológico e o homem tinham voos próprios, independentes do mundo material em que as pessoas viviam e vivem.
O idealismo neo-hegeliano persiste com força entre boa parte dos apoiadores dos governos Lula/Dilma, que defendem bandeiras progressistas, a exemplo dos direitos das feministas, são contra a homofobia e pedem a punição da PM assassina que só prende, tortura e mata pobres e negros das periferias.
Chegou-se mesmo a responsabilizar a classe média alta (além da mídia comercial) pelo xingamento da presidente Dilma no estádio Itaquerão, na abertura da Copa do Mundo.
O que essa turma de apoiadores idealistas do governo insiste em não entender é que as condições materiais em que as pessoas vivem determinam as suas ideias e valores morais.
Aqui em Osasco, parte importante do povo pobre acredita em deus e que Maria, mãe de Jesus, era virgem e sua primeira gravidez é obra e graça do espírito santo. Digo a esse povo religioso que foi a Igreja Católica que inventou isso, pois acha o sexo sujo e pecador, defendendo celibato dos padres interessada nas suas heranças financeiras. Digo também que, se o sexo fosse pecado, mulheres e homens nasceriam capados. E o carpinteiro José não era corno: comeu e muito bem comida a fruta de Maria. Depois curtiu o bendito fruto do vosso ventre.
Mas não tem argumento que convença aos religiosos de que Maria não era a virgem santíssima. No caso, há uma cultura e o domínio ideológico que lastreiam o preconceito e dogmas religiosos.
Isso só será superado se mudarem as condições materiais e se o socialismo der certo, não só com uma sociedade mais humana e justa, mas também superior material e tecnologicamente ao capitalismo.
Afinal, o socialismo marxista não é a distribuição da pobreza, como pregam os progressistas religiosos, mas a distribuição da riqueza e muito superior à sociedade capitalista, segundo Karl Marx.
Precisamos mostrar à população trabalhadora, e até para os setores médios, a pequena burguesia que vive do seu trabalho, que o socialismo é um avanço em relação ao capitalismo e às suas crises. Os socialistas marxistas pretendem acabar com a propriedade privada dos meios de produção e com a burguesia, mas não exterminar os burgueses fisicamente.
Embora saibamos que haverá trombadas contra os mais reacionários, que irão se opor, de armas na mão, contra o fim da exploração de classe, de seus privilégios e contra a conquista de um novo tempo.
A PM assassina é bom exemplo da resistência reacionária e fascista.
Mas os próceres da mídia comercial dizem não querer a PM perseguindo, prendendo e matando seus profissionais e alguns deles se dizem revoltados com pessoas da classe média reacionária que fazem justiça com as próprias mãos, amarrando o infrator num poste e o torturando. Que a polícia faça a justiça e o serviço sujo, dizem eles.
Essa gente hipócrita defende a repressão de classe, a turma humanista do governo petista concorda e diz querer respeito aos direitos humanos.
Só que o capitalismo não respeita direitos da população trabalhadora sofrida, só da burguesia, que explora, avilta e quer nossa gente reprimida por sua polícia fascista.
Os idealistas neo-hegelianos se dizem revoltados com o fascismo, embora não hesitem em apoiar o governo petista e de comunistas de logotipo que fazem aliança com os fascistas para garantir a administração cordata do capitalismo.
Otto Filgueiras é jornalista e está lançando, pela editora Caio Prado Júnior, o livro Revolucionários sem rosto: uma história da Ação Popular.
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9758

Política de Conselhos Petista:

Mais do Mesmo do Engodo da Democracia Burguesa
Às vésperas de completar um ano daquela que foi a maior manifestação de massas da História recente brasileira, conhecida como “jornadas de junho” e a um mês do início oficial da campanha eleitoral, o Governo Federal editou, através da Casa Civil, o Decreto nº 8243/14 que trata da promoção de uma Política Nacional de Participação Social- PNPS, visando modernizar e “democratizar” as relações de representatividade e poder entre a sociedade civil e o Estado.
De imediato, um conjunto de entidades ligadas ao Governo saiu em defesa de tal iniciativa e até mesmo adversários políticos atuais comentaram tal iniciativa como se fosse um “ato acertado e necessário” do Governo.
Em proporção ainda maior, as tradicionais forças conservadoras e seus veículos e agentes de (des) informação, também saíram em campo para bradar aos quatro ventos sobre o que representaria, segundo eles, um novo golpe institucional e oportunista do Governo, às vésperas das eleições, e que levaria ao descrédito os poderes da república – como se o congresso e o judiciário já não estivessem mais do que desgastados – e a “bolivarização” da democracia brasileira.
Entre fatos e boatos, sobre as reais intenções que motivaram a publicação do referido decreto, é importante salientar que, desde o final de 2013, o Governo vem preparando ações em diversas frentes para ora combater, ora se adaptar aos fatos e tentar controlar os impulsos e tendências da atual conjuntura brasileira. Recusa-se, de fato, a aceitar a verdade histórica que aponta para o esgotamento do modelo social-liberal, movido pela falsa lógica de inserção de parcela da população ao mercado via assistencialismo, consumismo e consequente endividamento público e a colaboração de classe, que não conseguiu superar contradições seculares, presentes nas relações sociais regidas pelas relações capitalistas excludentes.
Um bom exemplo dessa tática, que configuro como dual (repressão e cooptação), está na publicação, em dezembro de 2013, da Portaria da Lei e da Ordem, que remodelou todo o aparato de repressão do Estado, instituindo ações conjuntas entre as Forças Armadas, polícias locais e os Sistemas de Vigilância e Informação, através de práticas de espionagem, detenção prévia, suspensão de direitos, perseguição e criminalização de movimentos sociais, organizações e ativistas de oposição ao Governo e ao sistema, sob a alegação de serem Forças Oponentes à ordem e à sociedade, tratados como “terroristas”.
Dual pois, se com uma mão o governo procurou “dar no ferro”, atendendo aos clamores de setores mais retrógrados da sociedade, os quais compartilham interesses econômicos no Estado e com o atual governo petista, por outro, agora, o governo ”dá na ferradura”, buscando disciplinar e conduzir ordeiramente - lê-se, de forma leniente - os movimentos sociais, frente às tendências da luta de classes e as contradições em curso.
As Jornadas de Junho colocaram na ordem do dia muito mais do que os anseios por mudanças na administração pública, as críticas ao caos da mobilidade urbana, a falência dos serviços públicos, sucateados criminosamente por governos neoliberais, a corrupção ativa e o desrespeito aos mais elementares direitos previstos em lei. As jornadas colocaram em cheque o atual modelo de representatividade política e as respectivas instituições ou atores políticos tidos, nesse cenário, como referenciais e/ou mediações legítimas de poder.
Esse fato, perigoso aos olhos daqueles que temem uma radicalização da luta direta das massas e a possível transformação de um entendimento imediatista (na sua capacidade interpretativa) e espontaneísta (no julgamento e tomada de ação) em interpretações e ações conscientes e consequentes - enquanto expressão da evolução da consciência de classe-, mereceria uma ação também direta e imediata por parte do Governo, nesse sentido, sob outras formas e outra frente.
A forma encontrada, nesse caso, não é a repressão, mas sim a reificação da Política sob a égide das representações da democracia burguesa, como veículo formal para acoplar e acomodar “todas” as variantes e atores políticos em disputa, sob o compromisso do reconhecimento do Estado em relação às suas pautas, desde que estes agrupamentos, movimentos e ativistas, por sua vez, reconheçam o Estado e seus Governos como legítimos árbitros e mediadores dos conflitos e possíveis resoluções no âmbito das esferas de ação estatal - sempre “dentro da Lei e da Ordem”.
E a proposta de frente de ação, enquanto forma para se pactuar tal compromisso político, são os conselhos de políticas públicas, teoricamente menos burocráticos do que as tradicionais formas de representação republicana, mais abrangentes e representativas.
O Decreto em si, logo no artigo 1º, define como objetivos do PNPS: “(…) fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas de diálogo e atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil”, o que leva a entender esse compromisso entre as partes como o selo de garantia da proposta. Por sua vez, os referidos conselhos não possuem os poderes deliberativos sobre o orçamento, ou mesmo a consecução de um projeto, tampouco sobre a administração direta dos órgãos e das instâncias de governo, responsáveis pela implementação de quaisquer políticas públicas.
São conselhos consultivos que poderão, de acordo com o artigo 5º, auxiliar na formulação, na execução, no monitoramento e avaliação dos programas de políticas públicas, desde que, “respeitadas as especificidades de cada caso”.
Outro ponto contraditório e curioso é o fato de que caberá à Secretária-Geral da Presidência da República a incumbência de elencar quais são os critérios e condições necessárias para que os movimentos sociais institucionalizados, ou não, possam se enquadrar como participes dos conselhos, em que instância for. Dessa forma, cabe ao Governo decidir quem irá jogar o jogo e não temos dúvidas de que as condições serão aquelas que amarram os participantes às decisões dos conselhos, digo, aos interesses estratégicos do Governo.
No art. 3º, que trata das diretrizes gerais da PNPS, o inciso VII é esclarecedor quanto a um dos papeis que deve cumprir tal Decreto, entendido enquanto política de Estado, ou seja, de “ampliação dos mecanismos de controle social”. Nesse pequeno e quase desconexo trecho, reside todo o sentido ideológico e metodológico desse programa, que visa, além de formatar e disciplinar as ações e interpretações dos movimentos sociais, institucionalizar a lógica da negociação programada, através de acordos possíveis, que retirem das ruas ou ao menos esvaziem as reivindicações mais contestadoras e nocivas à lógica da acumulação e domínio do capitalismo, tentando adestrar e impor, como veículo oficial de diálogo, um mecanismo que por si pretende limitar o que vem crescendo em todo o país: a capacidade de insubordinação e de questionamento, cada vez mais crítico em relação ao Estado e às contradições da sociedade brasileira.
Não é à toa que, mais à frente, antes do artigo 15, o Parágrafo Único defende como modelo para as mesas de diálogo entre as relações de trabalho, a divisão tripartite (trabalhadores, patrões e governo), modelo pelo qual o sindicalismo de resultados oficializou, conjuntamente com o capital, o que seria a esfera ideal de mediação e resolução dos conflitos trabalhistas, em uma proporção sempre desfavorável aos trabalhadores, pois, do ponto de vista de classe, governos e patrões possuem um mesmo ideário e papel político. Como de praxe, caberá ao Governo decidir quem representará os trabalhadores nessas mesas tripartites (não faltarão sindicatos e centrais pelegas para se candidatarem ao posto).
A estrutura de funcionamento do PNPS estabelece uma hierarquia que vai do Conselho de Políticas Públicas, passando pela Comissão de Políticas Públicas, Conferência Nacional e Ouvidoria Pública Federal. Toda essa estrutura possui interconexões e ao mesmo tempo funções específicas, integrando o Sistema Nacional de Participação Social, conjuntamente com a Secretaria-Geral da Presidência, que, por sua vez, indicará a composição dessas instâncias. Mas ilude-se quem pensa que a participação é imediata em todas as esferas e de forma direta e autônoma.
Nesse aspecto, a proposta demonstra a falácia democratista e cai a máscara da autonomia desses conselhos em relação ao Estado e ao Governo, pois, de acordo com o art. 15, caberá aos Fóruns Interconselhos a definição das políticas ou programas a serem objeto de debate, formulação e acompanhamento e a “definição dos conselhos e organizações da sociedade civil a serem convidados pela sua vinculação ao tema”.
Ou seja, caberá a um Fórum que reunirá todos os Conselhos - escolhidos, inicialmente, pelo próprio Governo, a dedo - a definição do que será discutido e acompanhado e a definição dos demais conselhos e organizações da sociedade que deles deverão participar! Isto é a terceirização direta, através de um superconselho chamado de Fórum dos Conselhos, das indicações dos quadros e dos agraciados do Governo e de seus aliados, para a composição dos órgãos que irão “discutir”, “planejar” e “acompanhar” os programas sociais do próprio Governo!
Sem sombra de dúvidas, muitos movimentos sociais e organizações populares poderão se iludir com esse modelo, mas estarão apenas cumprindo a triste função de coadjuvantes em um teatro com papeis e script já definidos.
Em suma, a proposta tão atacada pelos setores de oposição ao PT não é em si nenhuma ameaça à democracia burguesa, tampouco subverte a ordem de modo a elevar os movimentos sociais institucionalizados ou não à condição de potenciais agentes de disputa política na condução do Estado. E não há qualquer comparação possível com a chamada bolivarização, menos ainda com a sovietização das relações de poder!
Na realidade, de um lado, o governo utiliza astutamente, às vésperas da eleição e às vésperas da possibilidade de mais uma onda de protestos populares contra o legado da Copa no Brasil, a proposta de criação de uma sistemática estrutura de Conselhos de Políticas Públicas, também como forma de agitação e propaganda eleitoreira, tentando iludir diversos setores da sociedade que ainda acreditam na “teoria de um governo em disputa” ou que esperam mais ações populares e democráticas. De outro, o Governo cria, com esse mecanismo, uma possibilidade de institucionalização da nova configuração do cenário dos movimentos sociais e conexão da sociedade via redes sociais, de modo a seduzir e cooptar esses atores e veículos de interação, sob a mesma lógica da manutenção da ordem do capital.
Tais setores compreenderam os reais interesses desses conselhos, o que potencializará o discurso eleitoreiro de Dilma e o reforço da influência do PT na estrutura do Estado no futuro próximo. Essa medida, de fato, por sua vez, resolve outra situação contraditória aos interesses do atual governo petista, isto é, a sempre difícil e muitas vezes tensa relação com o Congresso, pois, através dos conselhos, criar-se-ia um outro mecanismo de diálogo com a sociedade, que necessariamente não precisaria passar pelas barganhas com deputados e senadores de partidos que não estão na base aliada com o PT.
De tabela, poderá ser uma forma eficaz de atrelamento consentido e até mesmo uma nova forma de correia de transmissão ideológica do Governo junto à sociedade, desde que haja rejeição à velha estrutura de representação subserviente, que as tradicionais entidades pelegas da burocracia sindical ou estudantil já não atendem mais.
Nos últimos anos, os comunistas do PCB vêm defendendo a constituição de conselhos populares em todas as esferas de atuação do Estado, como forma de inverter o modus operandi da democracia burguesa pautada em uma representatividade formal que exclui os interesses de classe dos trabalhadores da esfera do poder político do Estado e de suas atribuições. O PCB defende o Poder Popular, com autonomia total dos movimentos populares e das organizações dos trabalhadores frente ao Estado e aos patrões.
O Decreto dos Conselhos Políticos, como ficou conhecido, é mais uma tentativa petista de iludir e instrumentalizar as massas, veiculando a falsa ideia de que estas participarão de fato da elaboração e consecução de políticas públicas que possam resolver problemas sociais mais sensíveis como o caos na saúde e na educação, a violência, a mobilidade urbana, entre outros.
O referido Decreto é uma clara tentativa de formalização institucional das relações sociais e disputas políticas, de modo a associar os anseios de mudanças e as tensões presentes na luta de classes a uma falsa ideia de democracia ativa e direta.
Não significa que os movimentos sociais não devam participar de conselhos setoriais por princípio, por estarmos em uma sociedade de classes ou por serem conselhos ligados à estrutura do Estado; ao contrário, todas as mediações possíveis que possam levar a luta dos trabalhadores (as) a um patamar mais maduro de identidade política e consciência de classe devem ser valorizados, enquanto possibilidades de acúmulo de forças e disputa por hegemonia.
Por sua vez, o fato de ser um conselho amplo e que possibilite algum diálogo com o Poder instituído em Governos locais e/ou no próprio Estado não significa necessariamente que essas possibilidades poderão ser alcançadas a médio ou longo prazo, cabendo sempre refletir sobre os limites e as condicionantes que irão reger a participação dos trabalhadores (as) nesses espaços.
Todo esse processo reflete o desgaste do atual modelo de representação política, elitista em sua essência e viciado em eleições antidemocráticas, atrelado a um Congresso repleto de aves de rapina, de lacaios do imperialismo, lobistas ou traidores oportunistas.
O modelo de democracia participativa e direta, de modo que os trabalhadores (as) possam exercer de fato a direção política da sociedade, deve se dar em Conselhos Populares, que possam conquistar espaços e meios legítimos para que seus interesses sejam defendidos com a necessária independência e autonomia em relação aos limites da ordem institucional, de modo a construir, na luta ideológica e no enfrentamento ao modo de produção capitalista, um novo ideário de organização social e política para a sociedade, ideário esse que chamamos de PODER POPULAR e que não será constituído por Decretos, nem deverá ser instrumento de manipulações e ilusões de classe com cosméticos populistas, operados sobre as velhas estruturas da Democracia Burguesa.
Fábio Bezerra.
Professor de Filosofia e História.
Membro do Comitê Central do PCB.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Ilusão governista é caso de terapia

30 JUNHO 2014 
Disputa eleitoral acirrada reforça dilema da esquizofrenia petista, que precisa bater na direita para amealhar apoio popular e corre o risco de perder o apoio da direita – empresarial, partidária e oligárquica – que deu força para o partido nas últimas eleições.
Hamilton Octavio de Souza
A militância governista anda a beira da histeria. Depois dos protestos de 2013, quando o aparelho chapa-branca do lulismo perdeu o monopólio das manifestações populares; depois das várias greves comandadas pelas bases das categorias de trabalhadores à revelia de direções sindicais neopelegas; depois que a juventude rebelde inclusive da nova classe “C” decidiu enfrentar o aparato repressivo do perene “Estado Autoritário de Direito”; depois de perceber que boa parte dos eleitores promete descarregar sua fúria em abstenção eleitoral e nos votos brancos e nulos; depois que setores da classe média branca mandaram a presidente da República “tomar no c...” em plena solenidade de abertura da Copa do Mundo – o inferno astral do governismo parece não ter mais fim, é mesmo de deixar até os mais sensatos na iminência de uma crise de nervos.
A direita elitista e neoliberal reproduz o mote de sempre no mapa político institucional, aposta no caixa da campanha e no tradicional fisiologismo para minar as bases do governismo – montadas em grande parte exatamente com as mesmas práticas e contingentes aderentes. Não é mera coincidência que boa parte dos apoiadores da Ditadura Militar se salvou na Nova República de Tancredo e Sarney, cerrou fileiras com Collor de Mello, se ajeitou nos dois mandatos de FHC e depois entrou aos bandos na aliança trabalho-capital da chapa Lula e José Alencar. Essa mesma direita – composta por grandes empresários e banqueiros, partidos conservadores, ruralistas do agronegócio, acadêmicos e jornalistas empenhados na defesa do sistema dominante, vive agora a tentação de embarcar em outras opções eleitorais que se propõem a servir os donos do poder.
O fisiologismo alimenta o caos momentâneo, cria o período de confusão generalizada, mas segue uma lógica implacável fundada em dois pilares sagrados, o da sobrevivência sob qualquer situação e o de levar vantagem sempre, não importa a cor da bandeira, o tipo de discurso ou a origem dos atores. O que vale mesmo é a preservação da espécie na esfera da máquina pública, que alimenta os bons negócios privados. Portanto, o happening partidário que mistura coligações mais extravagantes nos níveis estaduais e nacional, tem data certa para se acomodar, quando ficar evidenciado qual opção será premiada com o gerenciamento do sistema. O adesismo pode acontecer antes ou depois das eleições. De qualquer maneira, é certo que as mesmas turmas de aderentes que dominam o cenário político seguirão compostas para outro período de butins, até o calendário exigir novo ato de encenação democrática.
No jogo fisiológico nem sempre quem adere mais rapidamente terá as maiores vantagens, será o grande beneficiado. Estamos cansados de ver, no Brasil, que a arquitetura da resistência, construída de maneira pensada, pode produzir mais ganhos do que a mera adesão precipitada e voluntariosa. Temos inúmeros casos de sucesso nesse tipo de empreitada, desde o vereador que cria projeto para negociar a não transformação do projeto em lei, até o do jornalista que faz oposição para valorizar o passe na hora da adesão. Todos cuidam de seus interesses acima dos princípios éticos, dos valores políticos e dos programas partidários. Todos estão acima do interesse coletivo, do bem comum e da sociedade. Na zoeira do quadro atual é impossível ter alguma campanha com o mínimo de conteúdo e de proposta política se todos os matizes ideológicos dos setores hegemônicos estão juntos e misturados.
Marketing da mudança
Será que alguém imagina mesmo que a opção eleitoral definida nas urnas será capaz de conduzir o Brasil a algo diferente, melhor, com mudanças significativas na correlação das forças políticas e na construção de uma sociedade mais justa, mais democrática e mais igualitária? Se as eleições pudessem produzir um resultado desse tipo com certeza já teríamos mudado o país há muito tempo, pelo menos desde os anos de 1950 e 1960, em eleições diretas e democráticas. Tivemos um governo progressista com João Goulart, que foi derrubado com o golpe de 1964; depois tivemos 21 anos de Ditadura Militar com boa dose de capitalismo de Estado e endividamento do país com as agências e bancos internacionais. Nem bem saímos do regime dos generais e embarcamos no modelo neoliberal de Collor, FHC e Lula, com o arregaçamento do país para o capital financeiro e os grupos estrangeiros. Tentamos evitar o genocídio dos pobres com migalhas sociais, mas não conquistamos direitos para os trabalhadores e nem evitamos a contínua e brutal concentração da renda e da riqueza – fonte maior de mazelas e iniquidades.
Do fim do regime militar para cá tivemos governos do PMDB, PRN, PSDB e PT, todos eles em composição com quase todas as outras legendas do centro-esquerda, do centro e da direita – com a exceção dos partidos de esquerda refundados ou nascidos depois de 1985, entre os quais o PCB, PSTU, PCO e PSOL. O leque dos discursos e das promessas, nos últimos 30 anos, foi o mais amplo de todo o período republicano, mas em termos concretos tudo seguiu na mesma toada de favorecimento e de atendimento preferencial dos grupos sociais e das corporações já detentores de inúmeros privilégios. De que adianta acenar com mudanças – última moda no marketing atual – se as forças efetivamente interessadas nas mudanças não integram ou não predominam nas várias opções eleitorais do espectro conservador?
As poucas e mínimas diferenças entre as principais candidaturas da ordem dominante apenas funcionam para distrair a atenção dos eleitores sobre o que elas têm em comum – esse sim o elemento revelador da essência contida em cada proposta. Destaca-se a diferença do detalhe para não revelar a semelhança do todo, que é o elemento unificador de todos os projetos de preservação do status quo. O discurso da mudança, entendido como aquele que é portador de um projeto de redenção do povo brasileiro contra todos que o oprimem e o exploram, vem sendo banalizado desde as eleições de 1989 (a primeira no pós-ditadura), tanto por vencedores como por derrotados. As tais mudanças nos discursos nunca são traduzidas em práticas de efetivas transformações. Ao contrário, em vários aspectos, especialmente em relação aos direitos dos trabalhadores, os governos eleitos com promessas de mudanças produziram retrocessos graves em muitas conquistas sociais. E quase nada avançaram nas demandas populares históricas por saúde, educação, moradia, transportes e empregos dignos.
O quadro atual fortemente marcado pelo fisiologismo e pela descaracterização programática da grande maioria dos partidos, apenas reforça que o sistema político brasileiro atingiu um grau de autofagia jamais visto na história republicana do país. Tal surubada partidária favorece evidentemente as forças políticas dos grupos dominantes, aqueles que já sabem que a sua hegemonia não corre risco nem ameaça, que, independentemente de quem ganhar as eleições, todo o esquema de mando será rapidamente recomposto – com as mesmas forças aderentes que embarcaram em “diferentes” projetos nos últimos 25 anos da nossa incipiente democracia. Essas forças sabem muito bem que, com discurso de mudança ou não, tudo continuará como sempre, sob o seu controle.
Diante dessa babel tropical, parece ser a mais correta e importante tarefa – dos pensadores e militantes das esquerdas, dos movimentos sociais populares, das classes trabalhadoras e de todos aqueles que almejam construir um Brasil mais justo, democrático e igualitário – articular, com a convergência dos vários grupos e correntes, o trabalho de formação e organização de base, o debate de projetos e programas para a criação de instrumentos de luta que façam avançar as forças políticas interessadas e dispostas a realizar mudanças verdadeiras, radicais e profundas, na sociedade brasileira. Esse é o papel de quem não se presta à adesão, não se rende ao fisiologismo e ainda acredita que o socialismo é a grande obra que supera o capitalismo. Quem se perde na ilusão do momento não consegue vislumbrar o caminho do amanhã.
Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor.

CENSURA NUNCA MAIS - DOPS

01 JULHO 2014 
A Comissão da Verdade do Rio vem a público manifestar total repúdio à ação policial que, na noite da última quinta-feira, impediu ativistas da campanha Ocupa Dopsde grafitar nos tapumes que cercam a entrada do prédio que abrigou o antigo Departamento de Ordem Política e Social do Rio de Janeiro (DOPS/RJ), na Lapa, durante a ditadura empresarial-militar (1964-85).
Os artistas, que grafitavam uma bem-vinda alusão ao Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura e ao amplamente conhecido DOPS/RJ, foram abordados por oito policiais e conduzidos para a 5ª Delegacia de Polícia, que funciona no local. Durante o depoimento, ambos relataram ter sido destratados pelos delegados (delegado titular e delegado de plantão) que, mesmo reconhecendo o fato como “atípico” (ou seja, a não configuração de crime previsto em lei), insistiram que os ativistas estavam proibidos de prosseguir com a intervenção de street art, caso contrário eles mesmo tratariam de “criar um crime” para enquadrá-los. Os policiais entenderam que a mensagem que seria escrita no tapume da obra representava uma ofensa à Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ), ameaçando os ativistas caso não apagassem o seu conteúdo.
A CEV-Rio lembra que, durante o seu primeiro ano de funcionamento, promoveu intensa discussão a respeito das torturas impingidas por policiais contra presos políticos, vide o Seminário DOPS: Ocupar a Memória – Um Espaço em Construção, e, ainda, sobre o inaceitável estado de abandono em que se encontra o prédio chamado de Palácio da Polícia ou Prédio do DOPS. Conjuntamente com os movimentos sociais, a CEV-Rio reivindica a transformação do prédio em um Espaço de Memória. Assim, a Comissão felicita a iniciativa dos ativistas e destaca que, a cada ato arbitrário, a Polícia Civil deslegitima ainda mais a sua condição de gestora de um prédio que pode servir ao cidadão carioca como referência para o debate aberto sobre democracia, direitos humanos, resistência política e direito à memória.
Ao ameaçar e constranger militantes, delegados e policiais reproduzem uma prática histórica e rotineira de criminalização da luta política, observada durante a ditadura e que se reveste com outra roupagem nos dias atuais. Com isso, o delegado ignorou o teor do Decreto Municipal nº 38.307, criado em 2014, que reconhece o graffiti como “manifestação artística cultural que valoriza a Cidade”, e autoriza, no art. 4º , a utilização de espaços públicos, tais quais “tapumes de obras”, como estímulo à prática dos artistas de rua. Desta maneira, a atuação policial configura verdadeira perseguição ideológica e ato de censura, sem amparo legal e flagrantemente violatória da liberdade de expressão dos artistas.
Como resultado dos trabalhos da Comissão da Verdade do Rio, espera-se que o Estado seja capaz de avançar politicamente para coibir práticas como a ora observada. Entendemos que a reforma de instituições que protagonizaram violações de direitos humanos durante a ditadura, tais quais as polícias civil e militar, são imprescindíveis para consolidarmos uma democracia plena, participativa e plural. Por fim, a Comissão ressalta a importância de ações como as atividades do Ocupa DOPS, que realizará umfilme-debate em frente ao prédio na próxima quarta-feira, e espera que as autoridades envolvidas no caso não voltem a criminalizar ativistas e movimentos sociais, que seguramente estarão no prédio histórico em outras oportunidades.
Foto: Ocupa Dops
Comissão da Verdade do Rio

A DEMOCRACIA BURGUESA

30 JUNHO 2014 
Hiran Roedel
Vivemos em um mundo cada vez mais complexo, é verdade. O mundo da opulência de ofertas de produtos para serem consumidos, de um lado, e mais da metade da população mundial vivendo na linha da pobreza, ou seja, com menos de US$ 2,00 por dia, de outro.
A metade – os que têm poder aquisitivo –, em sua grande maioria, vive hoje na defesa de um modelo de sociedade pautado pela liberdade de consumo. De consumir o que é produzido por uma pequena quantidade de conglomerados econômicos que, despudoradamente, oferecem um cem número de marcas do mesmo produto para escamotear a não-liberdade de escolha. Essa é a democracia alardeada pelos grandes grupos midiáticos.
Mas será esse regime democrático? Será que este se sustenta pela igualdade, fraternidade e liberdade? Afinal, esse não foi o lema, criado pelos iluministas, que norteou a fundação da democracia burguesa?
Será que podemos afirmar que os termos democracia e burguesia, que caminharam juntos por três séculos feito siameses, são as duas faces da mesma moeda? Se são, o que dizer da metade da população mundial que vive na linha da pobreza?
Mas esse regime insiste em se intitular de democrático. Seus defensores o definem como sinônimo da igualdade, da fraternidade e da liberdade. Porém, se o que afirmam os 2% da população que concentram a metade da riqueza mundial e seus funcionários é verdade, como explicar a miséria e todas as suas consequências? E a existência dos 50% mais pobres que detêm apenas 1% dessa mesma riqueza, como justificá-los?
Contudo, temos a liberdade de ir e vir, de livre escolha etc., mas uma liberdade definida por apenas 2% da população. Todavia, deve-se insistir nos 50% sem as condições mínimas de sobrevivência. Esses não escolhem porque não têm como escolher. Mas não devemos nos desesperar, pois vivemos em uma democracia, sim: na democracia burguesa!
Nessa democracia em que os 2% da população olham por nós, ou seria melhor, nos controlam?
Atentos, sempre, em manter tudo funcionando para o bem de todos, eles nos indicam o caminho. E qual é esse caminho que devemos seguir, perguntariam os 50% da linha da pobreza?
  • Diria sem hesitar a burguesia mundial: devemos ampliar a presença do setor privado na economia, submeter o Estado à lógica empresarial reduzindo ao mínimo os investimentos nas áreas sociais. E não podemos deixar de aplicar os recursos públicos para socorrer e garantir os nossos lucros. E mais, é fundamental que não haja questionamento para não desistabilizar o regime e colocarmos tudo a perder.
  • E isso seria o suficiente? Indagariam os 50% mais pobres.
  • Não, responderia a burguesia. É necessário que vocês se apeguem, cada vez mais, às crenças religiosas, pois, dessa forma, terão o conforto espiritual para aguardarem a solução de suas mazelas.
Seguindo esse receituário, aprofundaremos a democracia burguesa e aí, quem sabe, diminua de 2 para 1 o percentual da população que controla os 50% da riqueza mundial. Se isso ocorrer, é bem capaz de ouvirmos os defensores da democracia burguesa alardearem que estamos avançando na democracia, porque diminuiu o número de bilionários no mundo!

terça-feira, 17 de junho de 2014

SOBRE O PERIGO FASCISTA NO BRASIL:


17 JUNHO 2014 
Conversando com Frei Betto
Paulo Oliveira*
Frei Betto, num pequeno ensaio, repercute a onda midiática petista: votar em Dilma é votar contra o fascismo que ronda o Brasil.
De início, ao descrever a ascensão da extrema-direita nas eleições para o Parlamento Europeu, o decantado frei começa sua análise demonstrando que seus sonhos de liberdade do passado se transformaram em pesadelos pós-modernos. Melhor transcrever as assertivas do frei: “A queda do Muro de Berlim soterrou as utopias libertárias”. Portanto, quem está soterrado precisa de ar para respirar, senão morre. E este ar viria de onde? Do voto em Dilma, contra o fascismo que se avizinha. O frei não explicita é que, dentro da tão propalada “democracia brasileira”, o voto em Dilma vem num pacote que contém Sarney, Collor, Renan Calheiros, Maluf.
Continuando, nosso assustado frei constata: “A esquerda europeia foi cooptada pelo neoliberalismo”. Somos informados por frei Betto que os partidos socialistas de Portugal, da Espanha, da Grécia, eram partidos de esquerda. Talvez a distância geográfica tenha turvado a visão de nosso ensaísta, que poderia se valer das modernas mídias para saber que tais citados partidos de há muito, mais precisamente, até antes da crise de 2008, já se alinhavam dentre as formações políticas que procuravam uma “solução mais humana” dentro dos limites do capitalismo.
E prossegue o frei, falando do Velho Mundo: “...não há nenhuma força política significativa capaz de apresentar uma saída ao capitalismo”. Na primeira parte do pensamento exposto há um vício de análise, próprio dos comentaristas políticos burgueses que somente consideram significativas as ações daquilo que eles denominam de política, isto é os feitos e os “mal feitos” dos PMDB, dos PT, dos PSDB da vida. Numa vesguice política, o frei não leva em consideração as diversas manifestações e greves que os povos da Europa continuam fazendo, resistindo às agressões capitalistas, greves e manifestações, essas sim significativas.
Na segunda parte, a incapacidade de haver força política capaz de apresentar uma saída ao capitalismo. Os povos da Europa, principalmente nos países mais atingidos pela crise, como Grécia, Portugal e Espanha, já começam a se transformar nessa força política que frei Betto não é capaz de enxergar. Talvez a saída não seja do agrado do frei: pela via real do socialismo, rumo ao comunismo.
Agora, o trecho brasileiro do pequeno ensaio. Deixemos falar o frei: “Aqui no Brasil nenhum partido considerado progressista aponta, hoje, um futuro alternativo a esse sistema (capitalista)...”. Bem, quanto a nós do PCB, resta uma recomendação ao equivocado frei: a leitura de nossos textos, resoluções, notas políticas.
Após considerações sobre as experiências fascistas europeias no século XX, frei Betto se interroga: “Caminha-se de novo para o fascismo?”. E cita o escritor venezuelano Luís Britto Garcia, que frisa: “...uma das características marcantes do fascismo é a estreita cumplicidade entre o grande capital e o Estado”. Neste momento nosso indigitado frei parte para o suicídio analítico. Quem lê a frase do intelectual venezuelano, e olha para o panorama sócio-econômico e político do Brasil, vai identificar o grande capital no Bradesco, no Itaú, na Odebrecht, na Gerdau, no Grupo Votorantim, somente para exemplificar. E do lado do Estado? BNDES, Banco do Brasil, Caixa, todos cumprindo as diretrizes do Palácio do Planalto e sua Esplanada dos Ministérios, numa cumplicidade explícita com o sistema capitalista nacional e estrangeiro.
Por último, o frei revela sua verdadeira intenção nas frases finais: “Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la.” No Brasil, o PARTIDO DOS TRABALHADORES, formação política de escolha de frei Betto, está há 12 anos governando com o escancarado apoio do grande capital. O mesmo grande capital que foi decisivo no golpe de 1964 e que financiou a famigerada Operação Condor e os porões dos centros de tortura da ditadura.
Assim, é uma falsa questão colocada pelo frei: Dilma ou o fascismo. Desde 2002, ao endossarem a Carta aos Brasileiros os intelectuais petistas, alguns por ingenuidade política, outros por má fé, continuam brincando com o ovo da serpente.
Sabemos, por experiência própria, que frei Betto pode ser tudo, menos ingênuo.
*Paulo Oliveira é Secretário Político do PCB-RJ e membro do CC

Corrupção e espetáculo no Mundial de Futebol

17 JUNHO 2014 
Marco A. Gandásegui.
’Do total de 5 bilhões de dólares que será gerado pelo Mundial no Brasil, a FIFA fica com 90%.”
ALAI AMLATINA, 12/06/2014.- A corrupção que corrói a organização da Copa Mundial de Futebol no Brasil, não foi surpresa para muitos. O que criou incerteza e preocupação nos círculos financeiros foi a falta de capacidade política dos governantes desse país para conter o descontentamento popular. Os gastos sem controle em obras suntuosas provocaram um repúdio generalizado por parte da população. Há várias décadas, a economia mundial tem vivido uma crise após outra. O setor produtivo – que era o motor do desenvolvimento – cedeu seu lugar para as atividades financeiras e especulativas. Em lugar de medir o crescimento econômico sobre a base da produção, atualmente se mede o ‘progresso’ sobre a base da transferência do dinheiro dos trabalhadores para os bancos.
Hoje, tudo tem seu preço, tudo se mercantiliza. ‘A política deixou de ser um serviço e se converteu num negócio’. O esporte não é a exceção. Ao contrario, se converteu numa das áreas que mais gera riqueza. Há um século, os esportes foram sequestrados pelo crime organizado (máfia e governo, associados) e posto a serviço dos exploradores que obtém lucros extraordinários mediante atividades ilícitas (as apostas e outras manobras). O que era considerado próprio do ‘submundo’, hoje, é parte do mundo dos negócios. Em fins do século XX, inclusive, os jogos olímpicos foram profissionalizados para fins mercadológicos. Os atletas competem por melhores remunerações. As sedes e seus dirigentes competem para apropriarem-se dos bilhões de dólares que são investidos nas obras e nos ‘sobrecustos’.
O evento esportivo mais valorizado, sem dúvida, são os Jogos Olímpicos. Geram milhares de milhões de dólares que o Comitê Olímpico Internacional (COI) maneja com o banco financeiro mundial. Com esmero, o COI consegue projetar uma imagem que se relaciona com seus fundadores, em fins do século XIX. Supostos cavalheiros que queriam ressuscitar o espírito olímpico da Grécia antiga: a cada quatro anos, as cidades gregas suspendiam suas guerras para que sua juventude competisse em esportes justos. Esse espírito tão nobre foi esquecido.
No caso da Copa Mundial, a Federação internacional de Futebol (FIFA) atingiu um ramo que se converteu num dos negócios mais bem sucedidos. A FIFA fatura anualmente vários bilhões de dólares. O Mundial organizado no Brasil gerará quase 5 bilhões de dólares, grande parte pela venda de direitos de televisão em escala mundial. A FIFA cobra comissões por todos os direitos vendidos por seus membros. Inclusive campeonatos nacionais e regionais. De cada camiseta, meia ou bota vendida, algum valor vai para a FIFA. Do total de 5 bilhões de dólares que será gerado pelo Mundial no Brasil, a FIFA fica com 90%.
Os protestos das mais diversas organizações em todas as cidades brasileiras são plenamente justificados. O governo está investindo mais de 20 bilhões de dólares na construção de estádios, ampliação de aeroportos e desenvolvimento da infraestrutura que beneficiará a FIFA, os especuladores e financistas brasileiros e internacionais. Parafraseando o sociólogo inglês, David Harvey, o Mundial de Futebol serviu para ‘despossuir’ o povo brasileiro. Aqueles que protestam não aceitam que suas riquezas e receitas sejam entregues aos construtores, financistas e especuladores sem receber alguma compensação. Neste saquei automático, a FIFA apenas serve de intermediário. É preciso reconhecer que o espetáculo apresentado está fora de serie: Ronaldo, Messi, Neymar e tantas outras superestrelas divididas em 32 equipes, 62 partidas num mês, que a tecnologia de ponta leva ao último confim do mundo.
Os brasileiros, obviamente, não se opõem ao futebol e nem ao Mundial. São os pentacampeões, os melhores jogadores – segundo muitos – da terra. Porém, rechaçam a forma tão arrogante com que a FIFA e o capital internacional chegaram a seu país, saqueando seu povo com a aparente cumplicidade do governo. A lição que é necessária aprender dos protestos no Brasil é que o esporte não pode continuar sendo manipulado pelos especuladores. O governo brasileiro enfrentará o povo, novamente em 2016, por conta dos Jogos Olímpicos no Rio, onde novamente fará gastos que não beneficiam o povo desse país sul-americano.
- Marco A. Gandásegui Filho, professor de Sociologia da Universidade do Panamá e investigador associado do Centro de Estudos Latino-americanos Justo Arosemena (CELA)
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Copa pra quem?

Um ano após as manifestações de junho, mês que escancarou a porta para a participação popular com grandes manifestações, lutas sociais, atos pela redução da tarifa do transporte coletivo, gritos contra a corrupção e o brado por mais saúde e educação ecoaram nas ruas, praças e avenidas de todo o país como o mais expressivo mecanismo de questionamento desse sistema que não prioriza o povo, e chegado o momento de dar um norte as mobilizações. O Brasil está realizando o maior evento de futebol, a Copa do Mundo, que traz com sua grande estrutura e espetáculo um rastro de sangue e repressão.
O megaevento se consagra como a Copa das empreiteiras, da mídia burguesa, grandes corporações e bancos. Um evento formatado para que essas empresas ampliem seus lucros, como se não bastasse a influencia desse setor que representa o maior financiador da política tradicional que tanto questionamos nas insurreições de 2013, essa Copa não é para o povo brasileiro, basta relembrar das remoções feitas nas cidades sedes dos jogos que retiraram 250 mil famílias de seus lares para a realização do megaevento, lembrar os 9 trabalhadores que morreram em condições degradantes na construção dos Estádios e pensar nos problemas sociais que assolam nosso país. Questionar a Copa é questionar a falta de investimento no ensino, é questionar a criminalização dos movimentos sociais, é questionar os altos gastos com o megaevento, é questionar os desvios da verba pública.
A FIFA irá lucrar R$: 9 bilhões de reais, onde um país a educação, a saúde, a habitação, transporte público, saneamento básico, estradas mal construídas, e a falta de segurança é precário ou inexistente. No caso do Paraná, devido a Copa as Instituições de Ensino Superior, Educação Básica e a Saúde passam por um processo de sucateamento e de privatização para garantir a construção do Estádio Arena da Baixada que custou R$: 326 milhões, muitas obras anunciadas pelo governo Federal e Estaduais de mobilidade urbana, lazer não estarão, prontas até o mundial e não tem garantias que serão concluídas e realizadas depois da copa, para mais além os ingressos que serão disponibilizados a venda está entre os valores de R$: 60,00 na primeira fase no pior espaço da arena a R$: 1.980,00 na fase de mata-mata. Por isso nós perguntamos: ESSA COPA É PRA QUEM?
A juventude de luta e os movimentos sociais de Foz do Iguaçu e da região Oeste do Paraná, ressaltam a importância do combate ao Estado de Exceção implementado pela ‘‘Lei geral da Copa”. Combater o estado repressor que perpetua a mesma base jurídico-filosófica de caça ao inimigo interno incorporada pela ditadura militar, continuar a luta para avançar nas conquistas sociais e não retroceder, denunciar os abusos da Copa e sua implicação nos problemas já existentes, é compromisso dos movimentos combatíveis da juventude resistente para a construção do poder popular.
Coletivo Negro MINERVINO DE OLIVEIRA
Coletivo Feminista ANA MONTENEGRO
Coletivo RUA Juventude Anti Capitalista

Movimento Universidade Popular
Unidade Classista
UJC (União da Juventude Comunista)
http://www.pcbfoz.com.br/noticias/copa-pra-quem/

sábado, 14 de junho de 2014

Todo apoio às manifestações Contra a violência da Polícia Militar

14 JUNHO 2014 
A Comissão Política Regional (CPR) do PCB de São Paulo manifesta seu repúdio à violência da Polícia Militar do Estado praticada contra os manifestantes que realizavam ato de apoio à luta dos metroviários em repúdio as 42 demissões realizadas pelo governador Alckmin. Durante toda a manifestação, a PM mais uma vez demonstrou o seu comportamento truculento e provocador, ao iniciar gratuitamente a repressão, mediante o lançamento de bombas de gás lacrimogênio e efeito moral contra os manifestantes, incitando o pânico, de forma a justificar a repressão.
A repressão foi tamanha que, mesmo ao final do ato, quando os manifestantes já estavam caminhando em direção à estação do metrô Tatuapé, a PM tornou a agredir manifestantes, jornalistas e, inclusive, o nosso camarada Wagner Farias, pré-candidato a governador de São Paulo, foi alvejado com um tiro de bala de borracha à queima roupa, além de sofrer ferimento no antebraço esquerdo por fragmentos de bombas de efeito moral, lançadas a curtíssima distância. Consideramos inadmissível que este comportamento da PM seja realizado em pleno Estado de Direito, violando a constituição, sem a punição de qualquer oficial ou policial militar.
Esse novo ato de repressão em São Paulo vem mais uma vez demonstrar que, tato para o governo Alckmin, quanto para o governo Federal, é mais importante garantir os interesses da FIFA, das grandes empreiteiras e do grande capital a atender as reivindicações da população que sofre nas filas dos hospitais, que é atendida por um sistema de transporte precarizado e caótico, vivendo em péssimas condições de moradia nas periferias, com uma educação de baixa qualidade e
salários de fome.
Vale ressaltar que mais uma vez os meios de comunicação manipularam as imagens das manifestações com o objetivo de satanizar os coletivos e ativistas adeptos da tática black bloc, transformando-os em bodes expiatórios, de forma a colocar a população contra os manifestantes e criminalizar todas as formas de protestos e luta.
O Partido Comunista Brasileiro (PCB) entende que as manifestações são legítimas e representam a revolta dos setores mais marginalizados da população e dos trabalhadores contra o sistema e as classes dominantes, responsáveis pela tragédia social que o Brasil vive atualmente.
Comissão Política Regional de São Paulo
PCB- Partido Comunista Brasileiro